Sábado, 13 de Agosto de 2011

Como ?

 
   Como é que se pode extirpar a dor ? Arrancar do mais profundo de nós esse mal que nos consome de forma lenta mas inexorável ? Como destruir esse cancro tremendo que nos faz recear a própria noite do dia que ainda não nasceu e nos impede de gozar o dia em que acabámos de acordar ?
   Como se apaga a recordação do que foi, a ideia do que poderia ter sido e será jamais ? Como silenciar a dúvida eterna que é não saber se poderíamos ter feito algo mais para mudar o que é já imutável ?
   Como aprender a acordar já com essa tormenta no peito que conduz o nosso primeiro pensamento consciente exactamente na direcção que tudo daríamos para evitar ? Como dissipar nesses primeiros instantes a memória de presenças perdidas para sempre, a memória dos momentos bons e maus com que escrevemos a história dos dias de uma vida que sendo nossa deixou de súbito de o ser ?
   Como encontrar a força para sorrir quando tudo o que queremos fazer é chorar ? Como falar do futuro quando todas as palavras que nos assomam à mente são sobre um passado que não regressará ?
   Como dissipar a raiva que nos ruge no peito pelo abandono a que fomos votados, a revolta contra a injustiça de nos ter sido roubado o direito à decisão, o direito à escolha e se calhar ao próprio erro com que é construída a experiência da nossa humanidade ?
   Como ? Quem mo ensina ? Quem o sabe ?

Quarta-feira, 5 de Janeiro de 2011

Fim de dia


Era já noite cerrada quando saiu para a rua.
Caía uma morrinha rala e esparsa que tornava as pedras calcárias da calçada escorregadias. Apesar disso não abriu o guarda-chuva. Deixou-o ficar onde estava enfiado na pequena bolsa de rede cosida ao topo da pasta de nylon. Sabia-lhe bem a frescura leve dos borrifos de água a aterrarem-lhe na cara. Faziam-no sentir leve, revigorado, limpo, depois daquelas longas horas fechado no escritório em frente ao computador a atender uma avalanche interminável de telefonemas e de mensagens de correio electrónico.
Sentia aquele estranho tipo de felicidade que se costuma associar aos prisioneiros que obtêm permissão para uma saída precária e tal como eles, naquele momento, não queria pensar na inevitabilidade do regresso com data e hora marcada. Naquele instante limitava-se a saborear o presente com a avidez com que um bebedor sequioso saboreia a largos golos uma cerveja fresca e leve no pingo do Verão.
Tinha saído do emprego com quase duas horas de atraso sobre a hora prevista, mas isso tinha como contrapartida o não ter que correr para o comboio. Tinha tempo, muito tempo, para apanhar o seguinte. Podia por isso dar-se ao luxo de descer a rua devagar e deixar a mente divagar acompanhando o olhar que saltitava entre as montras iluminadas de lojas encerradas e encarceradas por detrás de barras anti-roubo.
Aqui e além ainda se via um ou outro transeunte apressado mas a maior parte das pessoas passeava-se já com a lassidão de quem terminou o dia e já não tem nenhum compromisso ou hora marcada antes do início de nova jorna.
Respirou fundo deixando uma lassidão doce escorrer-lhe por entre os músculos doridos e ainda contraídos pela tensão nervosa do trabalho. Só aos poucos ia acalmando, como um combatente cujo corpo só muito lentamente se fosse dando conta de que a refrega tinha terminado. Aos poucos as passadas foram-se-lhe tornando mais lentas, mais descontraídas, perdendo a pressa de chegar sabe-se lá a que lugar desconhecido.
Dentro em pouco estaria em casa e por umas horas, poucas mas preciosas, poderia sentir-se de novo um homem livre.

Segunda-feira, 3 de Janeiro de 2011

Divertimento naútico

Mal pus os pés na rua miquei logo a cena! O miúdo, que mal tinha idade para grumete, lá seguia rua acima a tentar que a miúda não o deixasse na alheta. Com o trombil virado a bombordo lá ia soltando umas bacoradas gastas, daquelas que até eu já usava quando ainda andava de cueiros, a ver se a garina folgava as escotas e o deixava tentar abordagem, estão a ver ? Nem sequer topava a figura triste que fazia e lá tentava manter-se com bom seguimento.
Mas aquilo só visto!
Na cabeça uma daquelas melenas rasta, mal aduchadas sob o chapéu de basebol a escaparem a sotavento (ai se fosse meu filho: querenava-lhe logo a mioleira no primeiro barbeiro que encontrasse!) e a pala a tapar-lhe a orelha de barlavento. Pendurado do gasganete trazia-me uma daquelas voltas de ouro falso, tão grossa e tão comprida que dava para ancorar à vontadinha um navio de linha ao largo. Na camisola preta ia estampada a branco a focinheira dum gajo qualquer (acho que era daquele janado lá da Jamaica, 'tão a ver? O gajo das baleias, porra!). As calças então nem vos digo, todas caçadinhas para aí a meio do rabo, com a escotilha da ré escancarada a deixar ver de sopetão o porão inteiro. Lá lhe ia valendo naquele apuro a roupa interior senão até o mastro se lhe via!
Para ajudar à festa levava um par daqueles auscultadores modernaços, daqueles que mais parecem um par de bichos de conta nojentos, enfiados nas orelhas, com os fios a servirem de ovéns quase até à cinta. Pela amura de estibordo levava uma daquelas malas East Pack - daquelas da moda que custam uma pipa de massa, cheias de bonecada, topam? - o que cá para mim era de morrer a rir porque o gajo, mesmo que não desse por isso, estava para ali a rumar a Sul!
E então os andantes? Aquilo é que só visto! Uns talegos com umas solas tais que se o gajo se baldasse pela borda fora nem a alma se lhe aproveitava: ia direitinho ao fundo só com o lastro das chancas! Mas lá engraxadinhas isso estavam. Cá para mim o se o gerimu perdesse mais tempo a melhorar a lábia e menos a lustrar as botinas, de certezinha absoluta que dava com melhor derrota. Mas enfim, cada um é como cada qual e a verdade é que o gajo lá seguia com o braço lançado à amura da moçoila que mais parecia um arpéu de abordagem. Mais chegadinho e havia lenha! Salvava a rapariga a defensa em forma de mala a tiracolo.
Mas estou para aqui a falar e a falar do gajo e bem vistas as coisa a miúda também era uma alminha que só visto: contado ninguém acreditava. A garina mal tinha acabado de botar corpo e já parecia sei lá eu o quê. Valha-me Deus!
Para começar levava a proa mais pintada do que a carranca de um navio-escola. A camisola e o casaco iam tão rizados à altura do umbigo que lhe deixavam a barriga todinha à mostra. Se rizasse mais o velame – e que belo par de velas redondas envergava ela - isso é que era cá um espectáculo! Eu cá tratava logo de lhe tentar subir à gávea, ai nanas! Obras vivas não as havia mas e então as obras mortas? Estava ali tudo: amura, bordo e quilha à mãozinha de semear, ou melhor, de colher! Aquilo era cá um espectáculo tal que não havia gajo lastrado que não fizesse uma bordada de propósito, por muito cochado que fosse, para lhe cruzar a esteira! Se não o fizesse era porque era cego. Caramba!
O que vale é o parzinho lá virou de bordo por alturas do cimo da rua e afastou-se do meu rumo, senão quem se metia ao mar era eu, com tramontana ou sem ela e macacos me mordam se não punha o gajo à ginga. E era sorte, então não era!

Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2010

Ano Novo



    Lá fora a temperatura é baixa, mau grado o cobertor de nuvens que transforma a alba num espectáculo de sombras chinesas recortadas contra o céu no horizonte. O pormenor das coisas perde-se numa mancha pardacenta, azulada, que a vista só a muito custo consegue penetrar e um frio intenso ataca as camadas de roupa com que as pessoas se procuram proteger.
    É a primeira segunda-feira a seguir ao Natal, aquela semana estranha que quem pode aproveita para umas férias fora de época. O comboio segue nem meio cheio, nem meio vazio, com lugares estranhamente desocupados que transmitem aos passageiros habituais uma vaga inquietação que só ao fim de algum tempo se percebe ser causada pela estranheza da falta de um miríade de rostos anónimos a quem a repetição do encontro já deu qualidades e contornos de familiaridade.
    Adivinham-se as ruas a padecerem do mesmo mal, de uma sensação de despojamento e de vacuidade advinda da falta de comparência de muitos ao encontro diário e involuntário por entre a estreiteza dos passeios calcetados que a chuva miudinha depressa torna perigosamente escorregadios. Tudo parece lento, quase suspenso, como se a própria cidade tivesse deixado de respirar, uma apneia momentânea que será quebrada dentro de dias com o regresso das pessoas ao trabalho.
    A carruagem mantém-se mergulhada num silêncio inusitado, numa acalmia pouco usual, num hiato de conversas e dos ruídos surdos e abafados das músicas de discoteca que costumam escapar-se como duendes endiabrados dos auscultadores de leitores de MP3 demasiado potentes. Aqui e ali alguns passageiros dormitam, lêem ou observam a paisagem fantasmagórica que escorre com a chuva ao longo das janelas.
    Dentro de alguns dias a vida respirará fundo como que a ganhar alento para continuar e de repente, antes que haja tempo para nos habituarmos a essa ideia, será tempo de um novo reinício, de um novo ano com os seus desafios, alegrias e tristezas, vitórias e derrotas, um rol infindável de pequenas e grandes ocorrências que não serão nada mais, afinal de contas, do que as únicas marcas naturais entalhadas no discorrer dos nossos dias.
 Feliz Ano Novo!

Sábado, 25 de Dezembro de 2010

Reformas



    Da porta do outro lado do átrio de entrada para a minha empresa saía um senhor de idade, dono de um rotundidade abdominal notável. Vestia aquele tipo de roupa que se usa designar por informal, mas um olhar um pouco mais atento não deixava de revelar serem de excelente qualidade e algumas das peças feitas por medida num dos últimos alfaiates Portuenses que ainda resistem à concorrência infernal dos pronto-a-vestir.
   - Bom dia senhor cônsul. - cumprimentei eu ao mesmo tempo que lhe abria pressuroso a porta envidraçada de acesso às escadas do prédio.
   - Bom dia, bom dia – retorquiu ele – muito obrigado, mas faça-me o favor de passar primeiro.
   - De forma alguma senhor cônsul, de forma alguma. Queira ter a bondade de passar.
   Agradeceu-me de novo com um ar satisfeito e lá saiu, bamboleando-se de bordo a bordo para equilibrar o excesso de peso, com o casaco de caxemira, ideal para a temperatura baixa que por essa altura fazia na rua, pendente da curva do braço.
Preparava-me para sair quando fui surpreendido por um outro cumprimento
   - Bom dia! Então como vai isso hoje ?
   A voz vinha da porta de onde o cônsul havia surgido. Virei-me e dei de caras com o único funcionário (ou pelo menos assim o julgo) do consulado, um senhor de idade, já manco por força de uma artrite avançada que apesar de toda a medicação insistia em não o abandonar.
    Conheço-o há já cerca de seis anos, desde que a empresa para que trabalho se mudou de Matosinhos para este edifício no topo de uma das ruas principais do centro Portuense. É um senhor afável, sempre com um sorriso nos lábios e de conversa amigável e suave que cumprimenta toda a gente com quem se cruza nas escadas ou que por ele passe enquanto espera a chegada de um dos arcaicos elevadores asmáticos que lá nos tenta transportar desde o rés-do-chão até este ou aquele andar, com periódicos insucessos que nos condenam a uma prisão temporária nas suas entranhas enquanto esperamos que o convençam a cumprir as suas obrigações.
    Segurava com dificuldade a porta com um pé enquanto tentava a custo não largar uma miríade de sacos que segurava a custo, distribuídos pelas mãos e ângulos dos cotovelos. Imagino que se tratassem das compras de Natal do patrão. Não era de admirar: das poucas conversas que tivera com o senhor ficara a saber que trabalhava para o cônsul havia muitos anos. Ao que parece trata-se de uma espécie de faz-tudo, cujos encargos se estendem do aparar da relva na residência particular do patrão ao hastear matinal da bandeira do país representado pelo consulado todas as manhãs, às nove me ponto, faça chuva ou sol.
    Por vezes encontro-o à entrada, a caminho ou de regresso do desincumbir-se de uma qualquer tarefa que o obriga a calcorrear as ruas da cidade de lés a lés. 
Quando o consigo reter por uns minutos e convencê-lo a falar de si próprio – é por natureza um homem reservado e cioso da sua privacidade – queixa-se do calor excessivo do Estio ou das dores que lhe tolhem os ossos durante o Inverno e fala dos episódios por que já passou no desempenho das suas modestas funções.
Não sei se é casado, solteiro ou viúvo, se tem filhos ou não. Muito menos sei onde vive a que se dedica nos seus tempos livres “Raros, muito raros!” segundo ele. Tudo o que julgo saber é que é um homem conformado, que pouco mais espera de cada dia para além de não ser pior do que o que o antecedeu.
   - E então ? Ainda por aqui ? - pergunto-lhe eu por vezes quando nos cruzamos na entrada do edifício – E a reforma ? Para quando é ? Olhe que já bem a merece avaliar pela idade que aparenta.-
   - Reforma? - retorque ele – Isso é que era bom! Trabalhei tanto e por tão pouco na vida que já muito satisfeito me dei por ter que comer todas as noites. Muita miséria, acredite no que eu lhe digo, muita miséria!
   E prossegue:
   -Pelo andar da carruagem a minha reforma há de ser em hotel de luxo, quarto de pinho com quatro paredes, tecto e chão tudo ao alcance da mão sem ter que me levantar. Isso está bem!
   E eu lá solto um riso casquinado e de circunstância enquanto subo as escadas a pé sem nunca saber se o homem ficaria ofendido se o não fizesse ou se se fica ofendido por o fazer. Afinal, bem vistas as coisas, se calhar devia era chorar! Talvez um dia, quando eu me reformar, venhamos a ser companheiros involuntários, hóspedes do mesmo hotel de luxo.

Fique

No estacionamento da estação apenas dormitam meia dúzia de carros enrolados sobre si próprios, cobertos por uma fina película de gelo que revela que passaram por ali a noite. Por isso, ao contrário dos outros dias, consigo arranjar um lugar muito perto da entrada nascente.
Desço as escada que conduzem às bilheteiras e a novas escadas que conduzem a cada uma das plataformas. Ainda não me consegui habituar por completo a esta nova estação totalmente subterrânea, uma cripta enterrada sob as linhas de comboio onde num dia movimentado, num simbolismo quase maçónico, os passageiros se acotovelam ou se perfilam em frente às bilheteiras antes de emergirem para a luz e subir para o comboio que os há-de transportar para os destinos imediatos, ou pelo menos pretendidos, da sua vida.
Ao fim de quatro anos de viagens diárias já conheço rostos e hábitos que se tornaram um pouco as marcas usuais do meu dia-a-dia, mas hoje a estação está deserta e não tenho que correr para o comboio para tentar arranjar um bom lugar. Subo as escadas de acesso à linha três devagar, a saborear o ar frio da manhã que na minha imaginação é sinónimo de ar limpo como é limpa, fria e cheirosa a roupa que a minha mulher põe a secar nas cordas da janela da cozinha. A plataforma também está vazia. Apenas o revisor se passeia ao longo da composição, soltando baforadas de fumo que extrai a grandes haustos de um cigarro entalado entre os dedos.
Entro na carruagem apenas para descobrir o mesmo cenário que lá fora. Só aqui e ali uma cabeça ensonada dormita num dos lugares preferidos pelos passageiros, junto às janelas cujas molduras de plástico fornecem um apoio, ainda que maldosamente inclinado, para o cotovelo ou o braço. Também eu escolho um desses lugares, Sento-me, verifico os bolsos para confirmar a presença da carteira e do passe e olho à volta à procura de rostos familiares. Apenas descubro um enterrado num lugar lá para o início da primeira carruagem.
Sinto-me só e de repente inunda-me uma vontade de largar tudo, sejam quais forem as consequências, e de também eu ficar em casa a gozar o prazer raro de um dia com a família, fazer as malas e sair mais cedo, sem pressas, em direcção a casa dos meus pais. Poderia dizer que não o faço por ser uma pessoa responsável, por estar ciente das minhas obrigações para com os clientes da minha empresa mas estaria a mentir. Afinal de conta eles são apenas vozes distantes ao telefone que tenho que manter minimamente satisfeitos para conseguir não ser despedido e receber um vencimento que a crise e os cortes tornaram este ano ainda mais parco. Vou trabalhar apenas pelo receio de perder esta segurança aparente que uma má gestão, uma falência de clientes, um novo imposto ou apenas um golpe de má-sorte podem arrastar para longe com a mesma facilidade com que o vento arrasta uma palha. Mas como é a minha única fonte de rendimentos vou. Tenho que ir! Não queria mas vou. Sem alegria, sem expectativas para além de que o dia termine depressa (e para isso, ironicamente, é fundamental que tenha muito trabalho), mas vou!
Quanto a si lembre-se de que hoje é véspera de Natal por isso, se conseguir, se tiver a coragem que me falta fazer frente às obrigações impostas pelos meus patrões, pelos meus clientes, pelas pressões sociais, seja pelo que for que me faça sentir obrigado a ir trabalhar num dia como este, então fique. Afinal de contas, como diz a canção do Sérgio Godinho, hoje é o último dia do resto da sua vida, essa vida que nada nem ninguém sabe quando começa e muito menos quando acaba. Por isso fique!
Feliz Natal

Terça-feira, 22 de Julho de 2008

As ruínas

O Pedro e a Susana separaram-se!
Para trás ficaram anos de uma casa, filhos e destinos partilhados, mas também anos e anos de interesses e expectativas progressivamente mais díspares, numa separação de sonhos e almas que os tornavam cada vez mais amargos, mais sombrios, cada vez mais parecidos com um par de soldados entrincheirados em valas paralelas, tão próximas que um simples estender ocasional de mãos era suficiente para transpor a terra de ninguém entre ambos, mas ao mesmo tempo tão longínquas que nem a voz mais potente as conseguiria unir.
Não que tivessem o hábito de gritar um com o outro. Muito pelo contrário. Durante dias a fio vi-os tentar esconder as suas divergências de terceiros, numa guerra de guerrilha surda e muda, em que os rancores e as queixas se empilharam entre ambos como corpos fantasmagóricos presos nos rolos de arame farpado que se foram estendendo entre as vidas dos dois.
Aos poucos e poucos, à medida que a amargura se foi instalando confortavelmente no espaço cada vez maior entre eles, o desfecho desta pequena tragédia perdida na imensidão de um Mundo demasiado pequeno para o conseguirem partilhar tornou-se, primeiro previsível e depois, quase de um momento para o outro, de uma inexorabilidade assustadoramente fatídica.
Ontem fui com o Pedro à casa, que ainda há poucos dias eu dizia ser a de ambos, buscar mais alguns pedaços de vida que ele por lá tinha deixado, disfarçados de roupas, discos compactos e objectos pessoais. Por momentos, fiquei sozinho na sala com uma tristeza enorme a galgar-me, imparável, as ameias da alma enquanto observava as paredes onde permanecem dependuradas fotografias de onde os rostos sorridentes de ambos me contemplam, imobilizados em memórias emolduradas, como pedras tombadas no solo das ruínas de dias passados e felizes.